Catador de insignificâncias

Catador de insignificâncias

 

Depois de apresentados os pesquisadores que integraram a edição goiana do projeto Performar Arquivos, em nossa primeira web conferência, nos foi proposto pelas coordenadoras do projeto – Flávia e Nirvana – um espaço de se ouvir coletivamente através de seminários. O propósito era o de conhecer e se aproximar das pesquisas e dos referenciais teóricos com os quais cada pesquisador tem se debruçado atualmente. Esse gesto simples que poderia soar como distração ou indeterminação (tão cara e rara, ainda que muitas vezes indigesta) me tocou de modo salutar, com distinção e entusiasmo, pela escassez dos momentos que nos permitimos escutar entre pesquisadores. Como não tenho me (des)orientado por um objeto preciso ou campo teórico específico, ao vasculhar meu matagal de esboços e citações, escolhi revisitar três conceitos que, de forma especial, tensionam os campos duros da História e da Arte.

De maneira um tanto esquemática, o primeiro se refere à provocação benjaminiana de pensar o Historiador como um trapeiro, um catador de insignificâncias. Pequeno assim. Ao indagar sobre as histórias contadas nos dejetos, perecíveis e desapercebidos, os escritos de Benjamin nos recobram a atenção para as implicações nas escolhas dos procedimentos e nas determinações de objetos e fontes pesquisa.

Ao catador de lixos é concedida a faculdade de transformar e ressignificar os restos de uma sociedade na fonte de seu conhecimento. De forma semelhante, para o historiador/colecionador, a singularidade dos objetos descartados, de cada elemento desprezado, indicia a não menos verdadeira história da sociedade que os produziu. Essa capacidade de rever e inverter grandezas, de fazer do grande o pequeno e vice-versa, nos desperta a responsabilidade de levar em conta que nenhum acontecimento pode ser desprezado, mas também desperta a necessidade de se reconhecer a impossibilidade de uma totalidade, do saber absoluto, ao mesmo tempo em que impele a sua busca interminável.

O preenchimento das lacunas no embalo de constituir um sentido de continuidade expõe nossa compreensão a todo tipo de manipulação e legitimação das apologias, sob o claustro da objetividade asséptica e impessoal no tratamento de um arquivo qualquer. A apologia é a empatia com a catástrofe que incide ao tratarmos a história destituída de suas rupturas, como um continuum homogêneo. Uma forma ingênua de “tapar buracos”, mas pretensiosa por trair a incompletude e o não acabamento intrínseco à experiência, e que, ao enxertar os fatos, dissimularia fontes e documentos a favor de uma coerência entre causa e efeito.

“O trapeiro não joga o jogo, desmascara-o. Não tendo nada a perder, ele usufrui do privilégio dos vagabundos: ele pode troçar. Figura do inassimilável, este terrível simplificador sabe assimilar tudo. Ele arruma todas as máscaras sob uma única e mesma rubrica. […] Diante do seu olhar cínico, o mundo reduz-se a uma dança macabra, na alvorada do dia da revolução” (WOHLFARTH apud CANTINHO, 2011).

O colecionador de trapos e insignificâncias, ao retirar o objeto de suas relações funcionais, estabelece perspectivas outras, ou seja, diferentes olhares sobre os objetos, sobre suas rotas e transformações. A busca constante e o aguçar da percepção coloca a experiência do trapeiro num fluxo contínuo entre o achar e ser achado. Sua incursão no percurso do dejeto extrapola o presente da coisa em si e reinclui sua trajetória desde a criação, seus deslocamentos e valorações.

No segundo conceito (que felizmente tropecei na Av. Aurora em frente ao Pé di Café, numa das minhas deambulações por Pirenópolis), ao sublinhar a imprecisão gerada pelas  interceptações contínuas da imagem do Ritornelo, as palavras Deleuze e Guattari (1997) nos convidam a sair dos contornos de um território aparentemente delimitado e se lançar em linhas não escritas, com andamentos mais soltos. Esta abertura se dá pelas forças em obra que atuam dentro do próprio circulo que as abriga, “(…) mesmo as constantes o são pela variação e endurecem mais ainda por serem provisórias e acabam por valorizar essa variação contínua à qual resistem” (1997, pág. 113).

Desenvolvendo mais um pouco esse conceito, a consistência de um campo se faz necessariamente de heterogêneo para heterogêneo, na aptidão para passar de um ao outro. Aptidão de um em consolidar-se no outro. O começo não começa senão entre dois.

“O que torna o material (da arte) cada vez mais rico é aquilo que faz com que heterogêneos mantenham-se juntos sem deixar de ser heterogêneos; o que assim os mantém, são osciladores, sintetizadores intercalares de duas cabeças pelo menos; analisadores de intervalos; sincronizadores de ritmos (…)” (DELEUZE E GUATTARRI, 1997, pág. 123 e 124).

O Ritornelo importa para o olhar do viajante pela imagem dos pontos de fuga e de desterritorialização que ele inaugura enquanto conceito aplicado à filosofia da arte. Importa também por facilitar a percepção e a visualisação de como a diferença se manifesta na repetição. Ou mesmo por localizar a potência de descodificação implicita na idéia de agenciamento territorial, essa descodificação que possibilita experienciar o território não apenas no familiar, mas também pela diferença, como “exilado, viajante, desterritorializado, repelido nos meios” (1997). O que na filosofia é capaz de conferir mobilidade ao pensamento, de fazê-lo viajar, e que na arte transfere a importância das formas e matérias para as densidades e intensidades, ou do sistema para as linhas de forças em movimento.

Por fim, atento à necessidade e urgência em propor metodologias singularizadas em sintonia com as particularidades de cada pesquisa, sobretudo no campo ampliado das Artes, procuro debruçar e problematizar a ideia de Exodologia (terceiro conceito), a partir da leitura dos escritos de Michel Serres (2001), enquanto procedimento a favor da dimensão criativa e performativa da escrita e do pensamento.

O êxodo afasta as vias mais curtas para não reduzir o efeito das flutuações. O mesmo princípio de economia que investe contra o êxodo sob chancela da eficácia e da razão solapam os prazeres do vaguear, do errar, do aprendizado que só se dá na experiência de se perder.

Dessa perspectiva, é possível vislumbrar que a transformação dos paradigmas metodológicos de uma pesquisa se estabelece apenas no fazer, na sua duração. Ainda que sua compreensão seja complexificada e melhor adequada, cada via deve apostar no acaso, se abrir às dúvidas e ao imprevisível, aos “atratores estranhos”, como levanta Serres:

O êxodo, os afastamentos, não constam nos locais de estabilidade, mas no próprio caminho. Quando tiverem um método, então dirão: percurso do método, redundância. Mas, quando se trata de um êxodo, podem dizer: discurso do êxodo, equivalência. O discurso cria afastamentos em relação ao percurso, assim como o exôdo se distancia do meio, do equilíbrio, do extremo metódico” (SERRES, 2001, pág. 268).

Os lugares aonde vamos, de onde partimos e por onde passamos podem ser tratados como questões abertas.  O caminho mais curto não é obrigatoriamente a melhor opção, o percurso traçado, previamente mapeado, pode minimizar as descobertas e anular as circunstâncias, enquanto o “êxodo mergulha na desordem delas”.

Sem maiores pretensões, com essa breve revisão, lanço algumas inquietações sobre os modos possíveis de olhar a mobilidade implícita nos arquivos e a favor das passagens e aventuras carinhosamente alavancadas pelo projeto Performar Arquivos.

 

Bibliografia Consultada

 

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Kleber Damaso

Artista e pesquisador. Diretor do Centro Cultural UFG. Licenciado e bacharelado em Dança pela Unicamp. Mestre em História Cultural pela UFG. Professor dos cursos Artes Cênicas, Dança e Direção de Arte. Atua especialmente nas disciplinas Artes do Corpo, Arte e Tecnologia, e Dança e Dramaturgia. É coordenador artístico do Programa de Residências Trans Estéticas – Conexão Samambaia, e da Mostra Expandida de Dança – Manga de Vento.

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