Caminhos para uma escrita sobre o balé

Essa pesquisa emerge de experiências de ensino, pesquisa e extensão interligadas ao curso de Licenciatura em Dança do IFG campus Aparecida de Goiânia. O curso iniciou em 2013 e no ano seguinte as atividades de ensino (Ateliê de Balé e Metodologias do Ensino da Dança I) foram o pontapé para o interesse institucional na temática. No biênio 2015-2016 aconteceu o projeto de extensão “Pelas Beiras – conferências, conversas, oficinas e produção de vídeo sobre processos artísticos e históricos do balé, jazz e danças negras na cidade de Goiânia” – que contou com o apoio do Prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança para sua realização.  Em 2017, duas produções acadêmicas fortalecem a pesquisa nesta temática: a aprovação da proposta de publicação do livro “Balé no Brasil: História, Ensino e Cena” pela editora IFG, com o lançamento  no primeiro semestre de 2019; e a publicação do livro Balé sobre outros eixos: traçados de William Forsythe para a criação das tecnologias de improvisação, em agosto de 2017.

 

Entre arquivos, prestígios e cartas: caminhos para uma escrita sobre o balé

 

Pensar caminhos para a pesquisa arquivística em dança tem sido uma prática instigante e complexa que explode discussões relevantes para compreensão da dança como um fenômeno artístico e social. Este ensaio vem escarafunchar a ação arquivística e videodocumental do projeto Pelas Beiras (2016) e seu exercício crítico/criativo no Performar Arquivos (2018).

 

Projetando caminhos

 

Essa pesquisa nasceu há dois anos atrás com o projeto Pelas Beiras, realizado com o incentivo do Prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança 2015 e que teve como propositores Rousejanny Ferreira, Dayana Gomes e Michael Silva. Pelas Beiras tem como proposta discutir e promover experiências que tracem perspectivas históricas e construções estéticas de danças que, pela percepção dos propositores do projeto, estão à margem de um debate mais aprofundado na cidade de Goiânia; perdendo espaços de produção; e/ou mudando radicalmente sua forma de compreensão e feitura na cidade.

A edição de 2016 partiu de três pontos de reflexão:1) Procurando o eixo: trânsitos entre a formação e as estéticas do balé; 2) Entre o modismo e a resistência: o jazz, vinte anos depois; 3) Corpo no escuro: caminhos e desdobramentos da cena artística para as danças negras. Para tatear estes lugares, programou-se uma série de ações com o intuito de disparar questionamentos e aproximações que pudessem potencializar o recorte proposto: São elas:

– Documentário Danças Daqui: reúne três gêneros de dança nesta primeira edição. Traz vozes que narram trajetórias e memórias goianas, sobre o Balé Clássico, o Jazz Dance e as Danças Negras.

– Conferência: buscando compreender alguns temas referentes a estas danças, convidamos personalidades que se debruçam em estudar e propor nestas áreas.

– Roda de conversa: espaço de encontro, troca e um bom papo, com olhares de diferentes lugares de fala, porém que se encontram nas beiras destas danças. Contamos com convidados e convidadas residentes da capital goiana e outras regiões para lançar esta roda de conversa.

– Oficina: vivências práticas, referentes a cada uma das temáticas e gêneros que este projeto aborda e que compõem esta primeira edição. Conta-se aqui com profissionais atuantes, nos eixos que dançamos pelas beiras de todo este trabalho.

– Observador: produção escrita, construída a partir das falas, dos olhares, dos posicionamentos e questionamentos, que serão trocados nos diversos espaços. Narrativas elaboradas por observadores em cada uma das temáticas.

Desdobrando um dos eixos do projeto, em 2017 foi realizado o Procurando o Eixo – residências formativas práticas direcionadas a professores e bailarinos interessados em questões metodológicas e criativas relacionadas ou em diálogo com o balé. Essas duas potentes e seguidas ações deram estofo para o olhar balético proposto para o olhar analítico no Performar Arquivos. Os pontos de tensão, aproximação, disputas e outras curiosidades surgiram e contiuam surgindo justamente deste espaço de troca investigativa e intensamente plural.

 

Em primeira pessoa: revisitando as beiradas

 

Para a primeira fase da pesquisa Performar, dediquei-me à releitura atenta e criteriosa da seleção e socialização dos arquivos e depoimentos coletados para o videodocumental de balé do Pelas Beiras (2016). As três convidadas para gravação do vídeo foram: Gisela Vaz, Simone Malta e Tassiana Staciarnni, mulheres influentes e atuantes de longa data na cena balética goianiense. Trazendo como disparador da pesquisa a maneira como cada uma dessas mulheres selecionou seus arquivos pessoais e recortes específicos para socialilzação da sua imagem, coloco em xeque os arquétipos, a falsa lisura e a possível morte do balé como potência para uma dança/política atual.

No esforço de pensarmos caminhos de investigação e partilha que extrapolem o texto e a oralidade formal/acadêmica, a residência (segunda fase) do Performar Arquivos veio como um espaço de experimentação sensorial para perceber de que maneira algumas questões expostas naqueles arquivos – já mencionados da primeira fase – tocavam os pesquisadores presentes e como estes podiam alimentar e colaborar com o tateamento dos rumos que pretendia percorrer a partir daquele encontro.

O procedimento adotado para a residência foi composto por quatro experiências: 1) recortes em áudio da gravação dos depoimentos de balé para o documentário [Danças Daqui] – projeto Pelas Beiras; 2) Experiência visual de um emaranhado de imagens que foram cedidas por cada participante do documetário observando o recorte de trajetória/trabalho elaborado por cada uma; 3) Proposição de um espaço de diálogo entre os pesquisadores gerado pela experiência 1 e 2, trazendo provocações em papéis amassados como sinalização do desejo de uma leitura não linear, escorregadia e errrante para as narrativas dos sujeitos e processos do balé 4) Escrita de bilhetes a mim endereçados em folhas de papel extremamente amassadas persistindo o esforço de uma análise desestabilizadora do objeto.

E desta última experiência surge minha proposta textual que enlaça este ensaio. Escrevo bilhetes, deixo recados para o balé: seus feitores, pesquisadores e participantes do vídeo do Pelas Beiras. São bilhetes ambíguos que disparam faíscas, lembram pontos de atenção na feitura do balé ou que, estrategicamente seguem guardados ou esquecidos por tempo indeterminado. Performando minhas inquitações, apresento-me abaixo:

Olá,

apesar de publicada na internet, essa escrita foi criada no formato de pequenas cartas, lembretes deixados à vista para que alguém possa colaborar ou se sensibilizar na efetivação das tarefas descritas. Sim, pequenas cartas, lembretes em papel… Algo bem démodé, assim como o balé tratado aqui e todo o modus operandi que o alimenta. Só tem uma questão: os bilhetes já estão amassados, quiçá, um pouco antigos… Creio que tenham ficado em alguma gaveta ou caixa de antigas lembranças ou, quem sabe, simplesmente amassados e jogados num canto qualquer.

Sem delongas, sigo para os bilhetes. Sinta-se a vontade para também amassar, rasgar, remendar, rabiscar onde e o que quiser.

 

Cercada de willis, aqui estou

 

Não consigo acompanhar a veloz produção de livros, séries e filmes sobre zumbis. Na verdade, a primeira figura que me vem em mente quando se fala em zumbis são as willis do balé Giselle (1840). Mulheres fantasmagóricas que vagam em busca de justiça, de vingança pelo que poderiam ter sido, tendo como principal artifício provocar uma dança à exaustão, que leva o opositor à morte.

Invoco as willis (zumbis) porque suspeito que estamos sendo vigiados. Sinto que alguém nos observa, mas ainda estou juntando as pistas para dar informações mais precisas. Por enquanto, peço que fique atento, pois fenômenos dessa natureza aparecem de forma repentina. Principalmente quando se requer a autoridade do movimento ou ousam-se traços inventivos que desviem da linha do sistema. Outrora, ouço sussurros que dizem: “aqui estou e aqui quero permanecer” que partem das instituições mais distintas. Porém, as vozes não são claras o suficiente a respeito do que querem e para quê requisitam a relevância de estar aqui.

Sempre passo por esta rota, afinal, este espaço tem o tráfego intenso. Mas dessa vez não posso me delongar por aqui. Para quem fica ou estiver de passagem, só sugiro o estado de alerta: willis costumam despertar quando o chão da dança se estremece com confabulações que desnorteiam a lógica meritocrática, centralizadora e por vezes, messiânica.

Fique bem!

 

Remexendo baús

 

Antes de partir, remexi teus baús em busca de materiais para montar meu quebra-cabeça sobre os processos constitutivos do balé na cidade de Goiânia. Imersa em tanta coisa, atentei-me às logicas da organização e seleção de imagens de arquivo pessoal com fins de publicização. Ou seja, algo anterior ao material que, de fato, chega ao público alvo. Afinal, quando temos esse controle, como queremos ser vistos? Ou ainda, que espaço de legitimação é alçado? Creio que não tenha havido oporturnidade de comentar contigo, mas a forma com que você disponibilizou teu arquivo revelou muito da tua relação e querência de balé e de dança. Arquivo vivo, arquivo torto, arquivo aberto.

Vi no poder de seleção do arquivo uma engrenagem oligárquica que paira pelos afetos e desejos deste modo de construir dança. É como se cada arquivo pessoal, representasse, a seu modo, aspectos muito peculiares de um processo de dominação e eurocentramento que emerge nas bordas e setas de cada papel.

Desculpe, mas os baús ainda estão revirados, pois preciso cavucar um pouco mais. Assim como uma boa variação de repertório, é necessário tempo para maturar e refinar os detalhes dos arquivos.

Nos vemos em breve!

 

Por um triz, se permanece de pé

 

Quando sair, não precisa se preocupar em fechar a porta ou tentar ajustar o piso. Dessa vez, acho que podemos abrir mão dos remendos e apostar no acaso, já que pequenos reparos não têm resolvido todos os problemas dessa construção de dança.  Esse chão (balé) ficou tão limpo que há tempos está difícil de pisar. Difícil por que o chão ficou fragilizado, instável e parece que a cada esboço de movimento uma fissura se abre e mais camadas extremamente complexas aparecem. A insistência na lisura acabou desencadeando uma série de rachaduras que não sabemos como enfrentar, pois o equilíbrio e o centramento sempre foram fortalezas muito seguras para o movimento.

E agora, como permanecer em dança com o chão craquelado? Se não encontrarmos o caminho, tenho duas hipóteses: ou seremos engolidos por grandes crateras ou encontraremos escapes muito geniais. Pessoalmente, torço pela segunda opção.

PS: Estratégias para construir uma nova ética do movimento.

A porta aberta e o chão por arrumar

Até!

 

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Rousejanny Ferreira

Pesquisadora e professora do curso de Licenciatura em Dança do Instituto Federal de Goiás. Mestra em Performances Culturais pela EMAC/UFG. Membro do Colegiado Setorial de Dança do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC/MINC - 2012-1017). Idealizadora dos projetos “Procurando o Eixo” e “Pelas Beiras”. Diretora artística do grupo de dança Corpo Composto. Em 2017, publicou o livro "Balé sobre outros eixos: traçados de William Forsythe para a criação de tecnologias de improvisação". Tem interesse por pesquisas sobre sobre história, estética e processos formativos do balé.