História dos restos ou a performatividade arquivística

Sou dançarino de dança de rua e outras coisas. Tenho formação acadêmica em História e desenvolvi pesquisas relacionadas à cultura popular urbana e suas relações com o campo artístico da dança no Brasil na graduação e mestrado. Esse percurso foi no interior das Minas Gerais, em Uberlândia. Depois, investiguei as sociabilidades textuais da crítica e historiografia da dança em torno da criação do mito Ballet Stagium na memória da dança no Brasil. Nesses estudos, trabalhei com memórias clandestinas através de entrevistas orais, com memórias oficiais através de documentos institucionais, memórias pessoais através de recortes de jornais, cartas e bilhetes e fiquei enfurnado em  diferentes acervos e centros de documentação. E no meio disso, aproveito para produzir dança com o Grupo Três em Cena.

Ao me dispor a participar desta edição do Performar Arquivos, indiquei a possibilidade de aprofundamento sobre as relações entre pesquisa e história dos arquivos. Neste período tentei estimular um debate epistemológico e em outro uma prática de produção historiográfica pautada na atenção aos abandonos nos processos de colecionar documentos e de formar arquivos.

 

História dos restos ou a performatividade arquivística

 

Quando me interessei em participar do projeto Performar Arquivos, pareceu-me uma inusitada experiência de compartilhar e mergulhar em assuntos com os quais esbarrei ao longo de minha curta trajetória como historiador em formação. Especificamente no que tange às histórias dos arquivos, dos processos e relações costumeiramente negligenciados pela história como disciplina acadêmica. Acrescido a isso, a carência de acervos e trato historiográfico sobre dança no Estado de Goiás (a exemplo do que ocorre dos demais Estados da federação), fez-me vislumbrar no projeto uma possibilidade única de fomentar futuros e continuados estudos sobre o assunto em nossa região.

Partindo desta constatação e interesse, propus o debate entre os pesquisadores do projeto acerca da performatividade dos arquivos, seu caráter essencialmente mutante e seletivo que caracteriza o processo de guarda de elementos de um determinado presente vivido, para permanecer no tempo. Nesse sentido, os arquivos deixam de ser uma entidade que meramente “carregam” coisas do passado, para serem processos complexos de seleção sobre o acontecido, tornando-se constante a realização de perguntas como: Quem arquivou? O quê arquivou? Porque isso foi arquivado? Qual o rol de documentos e acontecimentos vividos pelo sujeito e quais desses foram eleitos para serem “salvos” num arquivo?

Por outro lado, também passa-se a interessar por aquilo que os arquivos guardam sem terem a pretensão declarada de guardar: o que permanece de acontecimento naquilo que arquivamos? Quais os lastros com o passado estabelecemos quando nos relacionamos com documentos, vídeos, fotos, entrevistas, livros ou qualquer outra narrativa que busca nos lançar em contato com o ocorrido?

Esse texto tem um caráter de comentário e questões em aspecto incipiente sobre os processos que envolvem pesquisa acerca do fazer arquivístico, que se sintetiza nisso:

Se aquilo com o que estabelecemos laço com o passado nunca constitui o passado em si, pelo menos nos oferece uma aproximação valiosa com as práticas performativas de selecionar elementos do passado para permanecerem no futuro. Nesse sentido toda prática arquivística constitui em seu cerne um caráter performativo de (re)organizar informações sobre o acontecido.

Partindo desse viés, na ocasião da imersão em Pirenópolis-GO, propus um procedimento prático simples, mas que do meu ponto de vista oferece um exercício singular para o reconhecimento de como todos nós produzimos restos. O procedimento consiste em endereçar a atenção para as práticas de abandonos, recorrendo ao que fadamos à morte durante nossos exercícios de registro. Foi solicitado aos presentes que elaborassem um registro – em folhas em banco – daquilo que haviam se desinteressado durante a realização desta edição do Performar Arquivos em Goiânia, para que pudéssemos reconhecer o que já havíamos abandonado nesse processo caso algum dia, por exemplo, os acontecimentos deste projeto fosse interesse de narrativa histórica.

Esse exercício se torna um convite para percebermos o quanto nossa história é tributária daquilo que não convidamos a permanecer em nossas memórias por meio de registros em outros suportes que não a própria memória, dos restos de nós mesmos, dos cacos que ficaram pelo caminho da dança em nossas cidades e o quão são importantes não terem permanecido para que outras histórias conseguissem seus lugares de destaque.

Dado o aspecto processual do estudo no momento desta escrita, optei em compartilhar uma bibliografia acerca do assunto, que pode nos auxiliar na compreensão daquilo que brevemente aqui apresentei.

 

 

Referência Bibliográfica

 

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Rafael Guarato

Historiador da dança e professor do curso de graduação em Dança e da Pós-Graduação em Performances Culturais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutor em Historia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Membro do Conselho Deliberativo e Fiscal (2014/2016) e da Diretoria (2016/2018) da Associação Nacional de Pesquisadores em Dança (ANDA). Membro do Colegiado Setorial de Dança do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC/MINC - 2012-1017). Diretor Artístico do Grupo Três em Cena (GO). Desenvolve pesquisas relacionadas a economia da dança, meios de legitimação estética e redes sociais no campo da dança no Brasil.

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