Metodologia

 

Performar como ação política: metodologia e os porquês

 

Ação Vizinhas pode ser definido como um coletivo de ações e programas culturais – tais são Acervo Mariposa, Temas de Dança e Cartografia de ficções – estabelecido em 2014. Atua nos aspectos da prática de pesquisa e do exercício cultural acerca de acervos de dança e da história desta. Deste encontro de pesquisadoras, com atuação acadêmica e também artística, Ação Vizinhas tem se tornado um espaço cada vez mais atuante de questionamento sobre a lacuna da memória e a história da dança no Brasil. Ação Vizinhas, então, após residências autogeridas e uma importante residência realizada com o apoio do Instituto Goethe (SP), em novembro de 2016, inicia, em 2017, Performar Arquivos edição Goiânia. Porque lembrar é, também, fazer política e nominar éticas possíveis. De quais histórias falamos quando situamos a produção e pesquisa na cidade de Goiânia?

Performar Arquivos, idealizado em sua versão em São Paulo por Nirvana Marinho e sua edição em Goiânia por Flávia Meireles, faz referência à experiência anterior, de mesmo título, realizada no Instituto Goethe São Paulo (novembro de 2016). Foram convidadas Adolphe Binder – de origem romena, residente em Berlim, atual diretora-geral eleita e diretora artística do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch; e Sigrid Gareis – que atua como curadora e dramaturga nas áreas de dança e de teatro. Estiveram nessa residência ainda Elis Costa, Flavia Meireles, Ju Brainer, Nirvana Marinho e Valéria Vicente. Como é performar arquivos que insistem em ser esquecidos? Quando cartografados, alcançam relações reflexivas sobre a função dos arquivos, da documentação e dos processos envolvidos. Por que insistem? Há um espaço para que o não dito se perceba, se faça presente e deflagre o jogo dos signos da memória.

Trata-se mesmo da responsabilidade de pesquisar sobre a memória, sobre o compromisso de fazer lembrar em tais formas de acervo, arquivo, história. Assim, se fez o projeto Performar Arquivos – edição Goiânia. Dá-se a partir do edital de fomento da Secretaria de Cultura do Estado de Goiás (SEDUCE), que, particularmente, abre a possibilidade para projetos de intercâmbio inter-regional e mostra tão relevante visão de cultura que se dá na riqueza da troca. A pista aqui é lembrar o propósito de fazer cultura, de fazer lembrar, em nosso contexto artístico-cultural brasileiro, sobretudo na dança.

Performar Arquivos – edição Goiânia surge com a co-realização do Olhares pra Dança (OPD), projeto de acervo das pesquisadoras Luciana Ribeiro e Valéria Figuereido e com a presença de mais pesquisadores selecionados em chamada pública. São eles: Kleber Damaso, Rousejanny Ferreira (através de parceria com o Instituto Federal de Goiás), Rafael Guarato, Ana Carolina Wenceslau e Marlini Dorneles de Lima. Foi convidada a pesquisadora Valeska Alvim (AC).

Suas pesquisas nasceram da inquietação colocada pelo projeto contida no próprio título e, sobretudo, cresce quando pesquisadores experientes voltam seu olhar para sua própria prática de investigação, acadêmica ou não, e devolvem ao projeto reflexões pertinentes sobre a memória da dança da cidade. Luciana Ribeiro e Valéria Figuereido falam sobre o masculino presente no acervo do Olhares pra Dança; Kleber Damaso sobre a errância no olhar investigado e historiográfico; Rousejanny Ferreira aborda a história do balé na cidade; Rafael Guarato fala sobre a história dos arquivos e o que não mais restou dele, o que desaparece; Ana Carolina Wenceslau sobre a cosmogonia africana e suas relações sensoriais com a história, e Marlini Dorneles de Lima traz fundamental pesquisa sobre o corpo com deficiência. A pesquisadora convidada Valeska Alvim fala sobre os rios nos quais a dança pode ganhar performatividade na sua localidade distante, mas importante para refletirmos sobre o que nossa memória ainda pode lembrar.

Como coordenadora das pesquisas, nossa tônica foi achar o comum dentro da diversidade de pesquisas: como ativar memória, como percorrer um caminho artístico ou curatorial dentro de um acervo, como nominar historiografias para determinados acervos, como a história insiste em ser contada, como transitar nela.

O percurso metodológico partiu de reuniões preliminares com projeto parceiro da cidade – o OPD, Olhares pra Dança, ao longo do mês de dezembro 2017 e janeiro de 2018. Seguido de tentativas de delimitar nosso recorte conceitual comum, surge a possibilidade de receber os novos pesquisadores da chamada pública e realizar seminários que apresentam as pesquisas já realizadas e seus entrelaçamentos com o “Performar Arquivos”. Segue-se a residência realizada em Pirenópolis (maio 2018), na qual procedimentos tornarem objetos de pesquisa, devolvendo aos acervos suas histórias e aos pesquisadores olhares diversos sobre sua prática de pesquisa.

Assim, a prática de pesquisa faz-se política. Um posicionamento. Uma espécie de fazer-dizer, sendo a performatividade que Austin postula, do que pode ser ouvido, sentido, contado e recontado. A contribuição para o desenvolvimento da pesquisa e a proliferação de um pensamento ético da memória, tanto para a dança da cidade de Goiânia, como para os estudos da história da dança no Brasil, faz-se presente e politicamente um tipo de engajamento.

Nirvana Marinho (pesquisadora do Acervo Mariposa e Cartografia de ficções)