ProblematizaAÇÕES sobre os corpos com deficiência

Minha trajetória em dança começou na formação e docência em balé clássico. Neste momento, me deparei com uma aluna que tinha uma deficiência física de membros superiores. Tal fato me fez questionar minha prática pedagógica e a concepção de corpo, movimento e dança. Essa experiência docente revelou outros corpos, que poderiam e queriam dançar, porém eram invisibilizados pela concepção hegemônica de dança e corpo presente nas academias de dança.

Tanto na graduação quanto na especialização realizados na Universidade Federal de Santa Maria, estudei sobre a corporeidade da criança com Síndrome de Down e o ensino da dança. Ainda na graduação, formei um grupo de dança contemporânea “Extremus Cia. De Dança”, com foco na inclusão de pessoas com e sem deficiência, o que orientava a busca por uma poética que traduzisse esta diversidade. Esta companhia ainda se mantêm na cidade de Santa Maria, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Ao longo da trajetória do ensino de dança, de coreógrafa e bailarina, muitos foram os trabalhos que buscavam respostas para pensar uma poética de dança que contemplasse a diversidade de corpos. Já  em Goiânia na Universidade Federal de Goiás, no exercício da docência em dança, orientei trabalhos de pesquisa acerca da inclusão no ensino da dança em escolas formais e técnicas na cidade, assim como criei um projeto  de extensão intitulado “Nós em mim”, com o objetivo de oferecer um espaço de trabalho com a dança inclusiva pensando na singularidade, o que nos une, o que nos diferencia nas dimensões dos corpos tendo ou não uma deficiência (física, intelectual ou sensorial). Queria pensar ainda no papel do artista docente, do acadêmico que se reconhece e se redescobre na dança.  Atualmente coordeno o Projeto Dançando com a Diferença: arte, inclusão e Comunidade, com fomento do Fundo de Arte e Cultura de Goiás.

O caminho desenhado para a pesquisa do Projeto Performar Arquivo foi pensado no sentido de contemplar de alguma forma minha trajetória de artista docente, com o intercâmbio realizado no Grupo Dançando com a Diferença de Portugal/Ilha da Madeira, dirigido por Henrique Amoedo. Além de me desafiar a lançar um primeiro pouso nos trabalhos realizados com pessoas com deficiência na área da dança na cidade de Goiânia. Generosamente fui atendida por Francis Otto, uma arte-educadora que atua e por que não dizer, milita para o ensino da arte, da inclusão e dos direitos das pessoas com deficiência na cidade de Goiânia e no estado de Goiás desde os anos 90.

No que se refere as intenções dos seminários e na própria caminhada de pesquisa, provoquei a mim e à equipe de artistas e pesquisadores a refletir, tensionar e poetizar a existência corporal, as hegemonias e padrões de normalidades. Entre as descobertas, caminhos se cruzaram, conceitos dilataram, outros ainda se encontram perenes. Entretanto, foi possível vislumbrar as possibilidade de questionar e borrar fronteiras, de uma possibilidade do vir a ser de um corpo dançante inclusivo, que se dá no cerne de uma sociedade e de uma arte dialógica, as vezes contraditória e excludente. Assim, me desafiei a escrever alguns procedimentos:

Procedimento 1- ProblematizaAÇÕES sobre os corpos com deficiência na cena da dança

 

Procedimento 2 – Olhares para o corpo com deficiência na cena da dança

 

Procedimento 3- Trajetórias e contextos (in) VISÍVEIS: dos corpos de dançarinos (as) com deficiência na cena da dança em Goiânia

 

Procedimento 4 – Por um arquivo persistente no porvir/vir a ser:  os dançarinos (as) com deficiente na cena contemporânea da dança em Goiânia.

 

1,2,3,4…Procedimentos (in)VíSIVEIS: Pousos delicados e breves em contextos e trajetórias dos corpos com deficiência na cena da dança em Goiânia

 

Procedimento 1: ProblematizaAÇÕES sobre os corpos com deficiência

 

Partimos, na busca de reflexões, acontecimentos e narrativas que nos auxiliem a pousar em trajetórias, modos e possibilidades de ser, de viver do corpo com deficiência na cena da dança na contemporaneidade. Convocamos aos leitores a compreender como o outro vem concebendo e principalmente se relacionando com as pessoas com deficiência. Para isso, a primeira pista é lembrar que houve uma série de transformações na imagem social das pessoas com deficiência, no século XX. A partir daí, então, cartografar modos de (in)visibilidades, subversões e problematizações que podem contribuir para pensar e ampliar as questões que cercam o corpo com deficiência na dança no estado de Goiás e principalmente na cidade de Goiânia.

Partimos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2008). Esta convenção, que aconteceu no Brasil em 2008, foi resultado da história de luta do movimento político das pessoas com deficiência, travada ao longo de décadas, em busca do exercício de sua cidadania e do protagonismo de suas próprias vidas, em igualdade de oportunidade com o restante da população.

O propósito da Convenção foi promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais para todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente.  Na convenção, foi acordado que pessoas com deficiência:

São aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas. (SECRETARIA NACIONAL DE PROMOÇÃO DOS DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA /SNPD, 2014, p.26):

É importante destacar que a consolidação de um novo paradigma sobre pessoas com deficiência vem sendo construído com participação social e negociação intensa entre os governos. A Convenção faz a transposição do olhar da exigência de normalidade dos padrões das ciências biomédicas para a celebração da diversidade humana. Nesta direção, foi desenvolvida uma interessante equação matemática (Medeiros apud SNPD, 2005), que ilustra o impacto do ambiente em relação à funcionalidade do indivíduo. Vejamos quais são os componentes da fórmula (SNPD, 2014, p.28):

Deficiência = Limitação Funcional X Ambiente

A proposição desta fórmula apresenta o ambiente como um fator decisivo na situação de deficiência da pessoa, sendo que as barreiras arquitetônicas, de comunicação e de atitude existentes é que impedem a sua inclusão social, razão pela qual devem ser removidas ou minimizadas. Neste momento, problematizamos:

  • Como equacionar esta fórmula, sem cair nos padrões de normalidade que o chão da modernidade construiu e exige nos modos de vida, pautados nos conceitos de eficiência, produtividade e espetacularização?

É preciso destacar que a deficiência é um conceito em evolução e que este resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas (SNPD, 2014, p.23). Apresentamos outras problematizações, como:

  • Quais sujeitos tem plena participação na sociedade atualmente?
  • Como os ambientes de ensino de dança, escolas, companhias e mercado de trabalho no campo das artes se apresentam nessa cena para a inclusão das pessoas com deficiência?

Para dançar com a diferença é preciso dilatar, movimentar, deslocar e rever o olhar sobre o conceito de diferença, por isso se faz urgente a emergência conceitual do direito à diferença e do reconhecimento de identidades, que traduz a capacidade de refletir a crescente voz dos movimentos sociais e o surgimento de uma sociedade civil plural e diversa no marco do multiculturalismo. Por isso expressamos mais algumas inquietações ao leitor:

  • De quais formas e perspectivas a deficiência é percebida no corpo que dança?
  • Como pensar este novo paradigma do corpo com deficiência, que traz as relações sociais e atitudinais na formação em dança?
  • Quais são os lugares das pessoas com deficiência na dança na atualidade e por onde eles transitaram?

 

Procedimento 2: Olhares para o corpo com deficiência na cena da dança

 

No procedimento 2 (dois) vamos sobrevoar o “não lugar”, sobrevoar questões que apontam para formas de presentificação deste corpo com deficiência na dança, preenchidos por horizontes de estigmas, preconceitos e pela condição colonizadora que o projeto de modernidade nos impõe. No momento que nos deparamos com tais elementos, nos preparamos para apontar caminhos e encontramos pousos nessa trajetória, como por exemplo: propostas e projetos voltados à arte inclusiva na cidade de Goiânia.

Não é de hoje que nos deparamos com a espetacularização das pessoas com alguma deficiência. Desde o surgimento das primeiras civilizações ocidentais, encontram-se relatos de temores, extermínios, afastamentos e repúdio aos corpos com algum tipo de deformidade (TEIXEIRA, 2010). Em meados do século XIX até os primeiros anos do século XX, as pessoas com algum tipo de deformidade física ou de ordem congênita eram exibidas como atrações de circos nas principais cidades da Europa, sendo chamadas de Freaks (Aberrações), conforme podemos observar na imagem abaixo:

Este status quo espetacular imbuído aos corpos considerados anormais, fragmentados, perpetuou-se em todos os setores da sociedade, inclusive nas artes. Para a pintura, o teatro, as danças dos séculos XVIII e XIX as deformidades e a feiúra humana eram motivos para criações que abordavam o medo, a maldade, a imperfeição do negativo, a punição, a morte, a feiúra, tudo aquilo que uma sociedade deveria excluir de sua organização. A cultura teratológica dos séculos XVIII e XIX chancelou a sentença e os papeis sociais dos corpos considerados anormais, estigmatizados como deficientes, gordos, negros ou doentes. (TEIXEIRA, 2010, P. 6)

Grupo Dançando com a Diferença – Beautiful People (coreografia: Rui Horta) Foto: Júlio Silva Castro – Fotografia, Vídeo e Publicidade

Dançando com a Diferença – Doesdicon- Coreografia e Direção: Tânia Carvalho – 2017- Fotografias: Júlio Silva Castro

 

Diferentemente do que acontecia nos FREAK Shows, em meados do século passado, ocorreu um inversão no foco do trabalho da dança com pessoas com deficiência. O importante agora é a utilização das diferenças no resultado estético-artístico daquilo que se apresenta, e não a sua exposição gratuita. Tal postura é encontrada em alguns grupos e companhias de dança que se intitulam inclusivas, como o Grupo Dançando com a Diferença, companhia contemporânea de dança da Ilha da Madeira, Portugal. De acordo com Henrique Amoedo (2008), diretor da companhia, o paradoxo do trabalho inclusivo nas Artes do Espetáculo reside na realização de espetáculo que incluem pessoas que têm associadas a si o arquétipo da incapacidade, sem que esta seja o principal foco de atenção.

Surge uma questão fundante para entendermos o conceito de Dança Inclusiva, estudada e proposta por Henrique Amoedo (2002) no seu estudo de mestrado “Dança Inclusiva em contexto artístico: análise de duas companhias”, que é “dançar com o corpo e não apesar do corpo” (Amoedo 2008, p.65).

A proposta de Dança Inclusiva compreende aqueles trabalhos que incluem pessoas com e sem deficiência onde os focos terapêuticos e educacionais não são desprezados, mas a ênfase encontra-se na elaboração e criação artística. Todo este processo deve levar em consideração a possibilidade de mudança da imagem social e inclusão destas pessoas na sociedade, através da arte de dançar (AMOEDO, 2002).

A temporalidade do conceito de Dança Inclusiva, segundo Amoedo, é prevista para desaparecer quando bailarinos com corpos diferentes forem aceitos em todas as companhias de dança pelas suas qualidades artísticas e esta diferença não for mais alvo de tantos estudos, atitudes incrédulas e/ou de condescendência dúbia. Só a partir deste momento terá sido cumprido o papel na procura de uma real inclusão destas pessoas no universo da dança e nesse momento o termo Dança Inclusiva poderá ser desprezado, ficando somente para os registos históricos – sintoma de aceitação da unicidade na diversidade, pois de bailarinos se trata, que dançam com o corpo e não “apesar do corpo” (AMOEDO, 2002, p. 124).

De acordo com Amoedo (2002) e Teixeira (2010), vários grupos criados no Brasil e no mundo no início da década de noventa do século passado foram marcos para o surgimento de novos olhares sobre a dança e sobre o corpo deficiente. Companhias como a AXIS Dance Co. Dance nos Estados Unidos, e a Candoco Dance Company na Inglaterra (imagem abaixo).

Candoco Dance Company, 12 by Claire Cunningham, Photography by Rachel Cherry 2012.

No Brasil, a Roda Viva Cia, na imagem abaixo.

Roda Viva Cia. de Dança é um marco para a dança brasileira, no que se refere ao corpo deficiente enquanto criador. O trabalho desenvolvido por esta companhia repercutiu além dos espaços inclusivos e de grupos terapêuticos, influenciando desta feita o surgimento de inúmeros trabalhos semelhantes por todo o país. (TEIXEIRA, 2010. p.3)

https://www.dance-web.org/contemporary-dance/brazil-2/?_page=3

Apesar destes importantes acontecimentos, os mesmos autores nos lembram que o olhar social sobre este corpo com deficiência na cena ainda segue contentando-se com brechas. Pois, no cenário da dança cênica ainda prevalecem os modelos corporais de perfeição e produtividade física, a supremacia do corpo bípede, da visão bidimensional, da audição perfeita, do raciocínio rápido e lógico, onde o corpo se torna cada vez mais atrelado à correção, condicionamento e a diferentes tipos de manipulações estéticas (TEIXEIRA, 2010).

Para finalizar este procedimento, insistimos em lançar outros questionamentos, para os leitores, questionamentos estes que nos convocam e impulsionam a sobrevoar os próximos procedimentos:

  • O corpo deficiente se reconhece em quais espaços artísticos-culturais?
  • Encontramos no território artístico a mesma reprodução dos discursos dominantes de normalidade?
  • Nas artes da cena corre-se o risco de privilegiar a manutenção destes mecanismos de inclusão disfarçada, reforçando a criação de guetos artísticos que se restringem apenas a espaços de educação especial?

 

 

Procedimento 3- Trajetórias e contextos (in)VISÍVEIS: espaços de formação em artes e as pessoas com deficiência na cidade de Goiânia

 

A busca por pousos em contextos, denominados de (in)VISÍVEIS, parte do entendimento de que a visibilidade e invisibilidade constituem mecanismos de constituição da alteridade e atuam simultaneamente com o nomear e/ou deixar de nomear (SKLIAR, 2001, p. 123). Este procedimento tem como intuito realizar uma provocação e ao mesmo tempo uma apresentação de pistas importantes no campo da arte inclusiva e da cena da arte no estado de Goiás, principalmente na cidade de Goiânia. Pistas estas que nos convidam e nos seduzem a pousos mais duradouros no futuro.

O caminho escolhido para essa trajetória visível se fez a partir de narrativas e documentos (folders, proejtos, fotografias e reportagens) compartilhados  pela arte-educadora Francis Marques Otto de Camargo Santana. Desta forma, vamos nomear alguns fatos, acontecimentos, que cartografam trajetórias possíveis de ver e compreender as pessoas com deficiência nos espaços de formação em artes na cidade de Goiânia. Admitimos que ao nomear alguns fatos, corremos o risco de deixar de nomear outros.

É preciso destacar nossa intenção nos dois últimos procedimentos, a intenção de que o leitor encontre entrelaçamentos das problematizAÇÕES apresentadas nos procedimentos 1 e 2 e assim possam direcionar seus olhares, reflexões, relações e fricções na apresentação dos procedimentos 3 e 4.

O desafio é convidá-los a pousar em breves pistas em fatos não ditos, incompletos, que potencialmente podem tatear trajetórias e contextos (in)VISÍVEIS: dos corpos de dançarinos (as) com deficiência na cena da dança em Goiânia.

 

Pouso: Programa Very Special Arts no Brasil e em Goiás/Goiânia

 

O programa Very Special Arts, criado em Washington em 1974, teve como objetivo promover o poder criativo das pessoas com deficiência, abrangendo crianças, jovens e adultos.  Em 1984, com o apoio da UNESCO, foi realizada a Conferência Internacional com os núcleos já existentes em vários pontos do mundo.

No Brasil em outubro de 1988 foi organizado na sede da FUNARTE o Comitê Brasileiro, filiado à Organização Internacional, sob o título de Very Special Arts/Brasil. Em Goiás, foi coordenado pela arte-educadora Francis Marques Otto de Camargo Santana, formada em Música e Letras Modernas – Inglês. No Brasil, este movimento recebeu o nome de Artes Sem Barreira. Conforme a arte-educadora, este evento foi importante para todas as áreas das artes, pois trouxe uma visibilidade da pessoas com deficiência para a cena das artes, mesmo que ainda em grupos formados apenas com corpos com deficiência. Fatos que reverberaram na trajetória e constituição das propostas de ensino da arte, eventos e grupo de dança na perspectiva inclusiva na cidade de Goiânia.

O I Encontro de Artes Sem Barreiras – Goiânia (GO) aconteceu em 1998, promovido pelo CIT (Centro Integrado de Therapia), realizado na  Universidade Católica de Goiás, com apoio da Secretaria Municipal de Educação e da Secretaria de Cultura  de Goiânia. Posteriormente aconteceram o II Encontro de Arte Educação e I Festival de Artes sem barreiras do Centro-oeste, na cidade de Goiás e em Goiânia, que contou com a participação de grupos de dança, teatro e exposições, e tinha como propósito propiciar um espaço de conscientização da comunidade para a aceitação e convivência com a diversidade.

Pouso: um voo para longe… Projeto Oi Amigos!

 

Este projeto marca um importante momento que possibilitou um intercâmbio com a Melwood Horticultural Training Center, uma entidade norte-americana que prepara, coloca e acompanha a Pessoa com Deficiência no mundo do trabalho. Melwood foi parceira desde 1992, oferecendo consultoria em Goiânia, no que se refere a ações em prol da pessoa com deficiência, intermediada por Cleonice Floriano Haesbaert (uma das fundadoras do movimento Pestalozziano em Goiânia que residia nos Estados Unidos trabalhando em Melwood, naquela época). Esta consultoria resultou no projeto, “Oi Amigos”, levando alguns estudantes com deficiência do Centro Livre de Artes através da parceria SEE e Secult, para uma viagem a Maryland- EUA, no ano de 1999. Os estudantes fizeram Exposição de Trabalhos de Arte e Apresentação de Danças Típicas Brasileiras na ARTiculate Gallery&Studio, VSA em Washington – DC, dentro do Programa Arte sem Barreiras / FUNARTE / Very Special Arts.

Os estudantes com deficiência do CLA, Christiane Andrade Barbosa, Washington Ferreira de Lima, Paulo Eduardo Fernandes, Lucimar Araújo, Edvaldo Fernandes Borges,  as professoras Carmem Fialho, Francis Otto, a Diretora do CLA e enfermeira Ivana Alvarenga de Faria, Carlene Borges como intérprete e Aparecida Siqueira representando a ex-Fundação Municipal de Desenvolvimento Comunitário – FUMDEC, hoje Secretaria Municipal de Assistência Social – SEMAS, viajaram aos Estados Unidos onde foram recebidos por representantes do grupo Melwood, organização internacional sem fins lucrativos e pelo Programa Arte sem Barreiras/FUNARTE/Very Special Arts de Washington, organização internacional sem fins lucrativos do qual a professora Francis era representante oficial em Goiás. O objetivo era promover novas oportunidades de capacitação para os profissionais e possibilitar a todos, principalmente aos alunos, uma vivência ímpar de intercâmbio cultural.

Fotografia – Goiânia retribuindo a visita em 1999. SEE e Secult. Exposição de Trabalhos de Arte e Apresentação de Danças Típicas Brasileiras na ARTiculate Gallery&Studio, VSA em Washington – DC, dentro do Programa Arte sem Barreiras / FUNARTE / Very Special Arts. (Acervo Pessoal – Francis Otto)

 

Pouso:  Espaços de formação- Centro Livre de Artes

 

O Centro Livre de Artes, CLA, é um Departamento da Secretaria Municipal da Cultura da cidade de Goiânia – Goiás, que tem por finalidade desenvolver atividades de ensino nas Artes Plásticas, Cênicas, Musicais e Arte-Educação.

No ano de 1992, a Oficina Integrada Especial foi criada e tinha como público alvo adolescentes e adultos com deficiência intelectual. A professora Francis lembrou que a criação desta oficina se deu em função de dois fatores. O primeiro deve-se ao fato da experiência de unir as aulas de dança e música realizada na década de 1980, quando ela e a professora de dança Márcia Montenegro Rocha trabalhavam no Instituto de Educação Especial – PETER PAN, atualmente Unidade I da Associação Pestalozzi de Goiânia e denominado Centro de Atendimento Especializado Peter Pan – CAE. O outro fator decisivo foi a experiência de alguns professores do Centro Livre de Artes nas turmas de Oficina Integrada (um dos cursos regulares oferecidos pelo CLA), que engloba música, dança, teatro e artes plásticas. Tais práticas somaram-se ao treinamento específico para professores, realizado em julho de 1992, ministrado por Cleonice Floriano Haesbaert (fundadora em 1970, da escola PETER PAN e pioneira do movimento Pestalozziano em Goiás).

“Nós fizemos a inclusão às avessas, apesar de não ser especificamente na sala regular, nós fizemos às avessas. No começo, para acostumar os professores e a comunidade, na nossa sala especial nós recebíamos as pessoas com e sem deficiencia, tivemos que fazer isso para poder receber eles” (Entrevista  com Franscis Otto, dia 25/04/2018)

Em 2002, o Setor de Artes Inclusivas deixou de existir e os profissionais especializados, como musicoterapeutas, arteterapeutas, psicólogos, assistentes sociais e pedagogos foram absorvidos pela Divisão de Apoio Psicopedagógico que assumiu a função de assessorar os alunos com deficiência. Desse modo, o ano de 2002 constitui um importante momento da inclusão no Centro Livre de Artes, que definitivamente passou a atender alunos com deficiência não em turmas separadas, mas sim inclusos às turmas frequentadas pelos demais alunos.

As duas vertentes que orientavam e conduziram os trabalhos no CLA naquele momento, eram os objetivos do Programa Very Special Arts, a Arte-processo, que buscava estimular os grupos que trabalham com a arte em função do desenvolvimento educacional e da integração social da pessoa portadora de deficiência, e a Arte-produto, que procura promover, divulgar e colocar no mercado a produção artística em todas as suas manifestações.

O próprio Setor desde a sua criação em Agosto de 1992, conhecido como Oficina Integrada Especial, dá um grande pulo à frente quando se prepara melhor para receber o aluno diferente. Atualmente, dentro do possível, não é mais o aluno que precisa se integrar ao espaço, mas o espaço é que precisa estar aberto e preparado para inclui-lo. Muito ainda será preciso fazer, muitos obstáculos como as barreiras arquitetônicas ainda existem, mas o caminho está aberto” (Relatório de Atividades relativas ao ano de 2000- Setor de Artes Inclusivas/ Carmem Fialho- Coord. Artística do Setor de Artes Inclusivas e Francis Marques Otto de C. Santana- Coord. Do Setor de Artes Inclusivas)

 

Pouso:  Projeto Grupo Goyá – dança e teatro inclusivos

 

Acervo pessoal- Professoras Francis Otto e Carmem Fialho

O Projeto Grupo Goyá – Dança e Teatro Inclusivos (inicialmente Grupo de Dança Inclusiva – DAI) é criado no ano de 1995 a partir do trabalho da Oficina Integrada Especial no CLA. Coordenado pela professora de dança Carmem Fialho, tendo o apoio da professora Francis Otto. No ano de 1999 se estabelece como grupo de dança, quando fizeram a viagem para os EUA.

O repertório corporal do grupo explorou os ritmos do folclóricos Goiano, técnicas teatrais e novos ritmos, como rap, dança moderna e afro. Outras áreas das linguagens artísticas também foram incorporadas: teatro, música e artes plásticas. As aulas possibilitavam um ambiente lúdico, alegre, descontraído e prazeroso, seguindo ações criativas em um espaço físico diferenciado de forma pedagógica, educacional e cultural.

Acervo pessoal- Professoras Francis Otto e Carmem Fialho

 

Pouso: Núcleo de Arte e Inclusão Basileu França – NAIBF

 

O Núcleo de Arte e Inclusão Basileu França (NAIBF), pertencente ao Instituto Tecnológico de Goiás Basileu França (ITEGO), vinculado à Secretaria de Desenvolvimento, oferece cursos artístico-pedagógicos, oficinas de arte, realiza pesquisas e projetos, articulando parcerias que integrem atividades extras de caráter ambiental, social e profissionalizante. As atividades são sempre voltadas para o processo de inclusão de pessoas com deficiência (jovens e adultos) e seus familiares, com o objetivo de proporcionar o encaminhamento dos atendidos ao mundo do trabalho.

O Núcleo oferece curso de artes integradas de formação inicial e continuada às pessoas com deficiência (e os familiares daqueles que necessitam de acompanhamento, devido a necessidades específicas), além de direcionar os mesmos para as diversas modalidades de cursos profissionalizantes oferecidos pelo ITEGO e proporciona também atividades extras, de caráter artístico, ambiental, social e esportivo universal, sempre tendo em mente o objetivo final de inserir estas pessoas no mundo do trabalho.

 

Pouso: 1º PROCENA: Acessibilidade e outras perspectivas

 

O Núcleo de Arte e Inclusão Basileu França (NAIBF) realizou no ano de 2016 o encontro Procena – Acessibilidade  e outras Perspectivas –, juntamente com seus estudantes e familiares em fase de Conclusão de Curso vinculados ao projeto de pesquisa e extensão do Curso de Tecnologia em Produção Cênica para e com pessoas com deficiência, com o suporte da NósDuas Produções.

A proposta acadêmica do Procena (Produção em cena) visou promover o diálogo, a discussão e a reflexão acerca de temas referentes à inclusão, o acesso e a promoção da pessoa com deficiência no contexto profissional, cultural e no cenário artístico goiano, estabelecendo o diálogo entre os elementos cênicos / linguagens da produção cênica, legislação relativa à pessoa com deficiência, tratando as potencialidades e os desafios existentes neste âmbito.

 

Pouso: Instituto Arte e Inclusão/INAI

 

Presidida pea arte-educadora Francis, o Instituto é uma Associação civil, filantrópica, sem fins lucrativos, de caráter educacional, cultural, de assistência social e de saúde, em Goiânia (GO). O Instituto Arte e Inclusão tem por finalidade propor, realizar e apoiar ações que visem a promoção da pessoa com deficiência e de seus familiares, por meio de políticas inclusivas.

 

Procedimento 4Por um arquivo persistente no vir a ser/sem fim: os dançarinos com e sem deficiência na cena contemporânea da dança em Goiânia

 

Arquivo próprio/Projeto Dançando com a Diferença: arte, inclusão e comunidade (2018)

 

Pouso: O encontro dos corpos dançantes com e sem deficiência da cidade de Goiânia e região e o Grupo Dançando com a Diferença

 

O encontro dos estudantes com e sem deficiência da cidade de Goiânia e região com o grupo português Dançando com a Diferença (GDD) se dá pelo desenvolvimento do projeto “Dançando com a diferença: arte, inclusão e comunidade”, realizado através do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás (2017). O projeto tem como foco desenvolver ações formativas, educacionais e artísticas abordando as questões da inclusão através da arte.

O projeto parte da remontagem da obra coreográfica “ENDLESS”, do grupo português Dançando com a Diferença (GDD), com apresentação pública desta obra, tendo no elenco mais de 40 dançarinos, proporcionando o encontro entre intérpretes da companhia com estudantes, artistas, professores de escolas, instituições de educação especial, universidades, músicos e comunidade da cidade de Goiânia e região.

A inclusão e a arte são o mote deste projeto que propõe ações orientadas por três aspectos: educação e formação, inclusão e criação artística, os quais são compreendidos na potência de sua inter-relação não só na formação em dança na perspectiva da inclusão, mas também na formação indireta de públicos voltados para o consumo deste gênero de criação e produção artística.

O projeto está proporcionando o encontro com o conceito de Dança Inclusiva, desenvolvido por Henrique Amoedo que reafirma a cada obra a sua posição teórica, ou seja, um produto com excelência artística poderá contribuir para que uma gradativa mudança na imagem social das pessoas com deficiência aconteça.

Muitos são os encontros no último pouso desta trajetória, como o encontro do artista com deficiência Paulo Eduardo Fernandes, que fazia parte do grupo de estudantes que foram dançar nos EUA no  ano de 1999. Depois de 19 anos é um dos artistas que compõe o projeto/espetáculo Endless, e também realizou o momento formativo do Projeto Dançando aqui em Goiânia em janeiro de 2018, com o diretor e coreógrafo Henrique Amoedo do Grupo Dançando com a Diferença/Portugal. Henrique foi um dos pioneiros do movimento da arte inclusiva no Brasil, juntamente com a coordenadora Nacional do Very Special Arts, Albertina Brasil Santos e a professora Francis Otto, representante deste projeto no estado de Goiás, que esteve presente com atuação persistente e propositiva nas instituições e ações desenvolvidas desde o início dos anos 90 do século passado na cidade de Goiânia, e ainda hoje é a presidente do Instituto Arte e Inclusão.

 

Sem fim?

 

Talvez a tradução de “endless”, seja a tradução da busca por contextos inclusivos na cena da dança e consequentemente na sociedade, cercada de contradições, incertezas e exclusão. Um pouso sem fim, guiado por (in) visibilidades que precisam ser problematizadas, um pouso que nos convoca a uma poética do olhar para os corpos com deficiência. Uma poética da diferença que questiona a condição humana, e suas pretensas certezas do que seja normalidade, a vida, a degradação do corpo e a nossa única certeza, a morte.  Paradoxalmente, “Sem fim”, pode ser também o mote das buscas por trajetórias onde a inclusão seja vivida em sua plenitude na arte /vida, sem negar a experiência de uma sociedade discordante consigo mesma, infundada, alterada, excêntrica, multifacetada, polifônica, incompleta, conflitiva, aberta e arriscada.

Endless – Grupo Dançando com a Diferença (GDD) – Portugal (Foto: Júlio Silva Castro)

 

 

Referências

 

AMOEDO, B. Jose Henrique. Dança inclusiva em contexto artístico: análise de duas companhias. Dissertação elaborada sob a orientação da Prof.a Doutora Elisabete A. P. Monteiro, e apresentada na Faculdade de Motricidade Humana, 2002.
_______________________; A Dança como uma ferramenta de inclusão social. Revista de Artes e Cultura do Teatro Viriato. Boa União. Ano 1, Número 2- Semestral/Maio, 2008.
BRASIL. Acessibilidade. Brasília: SEDH, 2008.
BRASIL. Direitos Humanos: documentos internacionais. Brasília: SEDH, 2006.
DINIZ, Débora. O que é Deficiência. Coleção Primeiros Passos. São Paulo:
Brasiliense, 2007.
LEPECKI, André. Exaurir a dança: performance e a política do movimento. Tradução Pablo Assumpção Barros Costa, 1 Ed, São Paulo: Annablume, 2017.
Novos Comentários à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência /Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR)/Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNPD) • Novos Comentários à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência : SNPD – SDH-PR, 2014.
SKLIAR, Carlos. O Nome dos Outros. Narrando a alteridade na Cultura e na Educação. In: LARROSA, Jorge & Carlos Skliar (Org.). Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
TEIXIERA, b, Ana Carolina. Deficiência em cena: o corpo deficiente entre criações e subversões. O Mosaico – Rev. Pesquisa em Artes/FAP, Curitiba, n.3, p.1-9, jan./junho. 2010 .

 

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Marlini Dorneles

Artista-pesquisadora da dança. Docente do Curso de Licenciatura em Dança- FEFD da Universidade Federal de Goiás. Doutora em Artes pelo IDA-UnB, com pesquisa sobre corpo, saberes tradicionais e poéticas populares. Artista do Núcleo de Investigação Cênica Coletivo 22. Pesquisa processo de criação, inclusão e metodologia do ensino da dança e descolonização dos saberes. Coordenadora das Ações Afirmativas da Universidade Federal de Goiás e do coordenadora do Projeto “Dançando com a Diferença: arte, inclusão e comunidade”, aprovado pelo FAC/2017.

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