Tudo começa quando escorre

Recordo-me, com inusitada alegria, daquelas manhãs de quarta-feira. Cada amanhecer naquele distrito novo despertava em mim novas cores. Sabe quando você está em uma cidade nova, com pessoas novas e tudo é novo e maravilhoso?! Eu me sentia simplesmente incrível. Eu respirava diferente. E respirava, respirava, respirava. Renascia. O céu era amplo e de um azul mais cinza. O vento mais frio fazia com que o sol me tocasse de uma maneira diferente. Todas as manhãs essa experiência me renovava. Não acordava tão cedo. Tomava café em casa. Aprendi a tomar chá sem açúcar. Flores silvestres de um vermelho quente.  Eu caminhava a pé para o ponto, a esperar o coletivo. No caminho, ia explorando aquela paisagem que ficou para mim traduzida como tecida de chita. Essa era a paisagem. Chita. Cultura popular. Vivência em comunidade. Casa de república. Moradia. Circular universitário. Barão Geraldo. Aulas de dança. Corpo e Ancestralidade.

Em nosso curso, vivenciamos vários laboratórios para a construção de nossa pesquisa artística. Tive colegas incríveis. Incríveis mesmo. Não estava familiarizada com essa abordagem de trabalho corporal e com essa proposta de pesquisa artística. Você sempre dizia: é preciso encontrar o seu chão. E ficamos várias semanas nessa pesquisa.

Eu me perguntava: Qual é o meu chão?

Muitas coisas para absorver. Os caminhos que me levaram a você e a essa experiência ventavam, como os ventos de Iansã. E Maria Bethânia foi a trilha desse momento.

A minha voz é o vento de maio

Cruzando os ares, os mares e o chão

E meu olhar tem a força do raio

que vem de dentro do meu coração

(A Dona do Raio e do Vento – voz: Maria Bethânia  / Composição: Dorival Caymmi)

Mas a minha ideia primeira de chão era terra. Eu não sentia terra. Eu não via terra. Eu só sentia o vento. Eu me sentia solta no vento. Ventando. Eu desejei e busquei as forças desse movimento para fazer a travessia. E agora estou aqui, com você, investigando…estudando…criando…Sim, eu sou filha do vento! Na certeza que os ventos que me trouxeram aqui, me levarão além.

Iansã comanda os ventos

E a força dos elementos

Na ponta do seu florim

Senhora das nuvens de Chumbo

Senhora do mundo dentro de Mim

Rainha dos Raios…

(As Ayabás – Intérprete: Maria Bethânia / Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Esse processo de construção artística a partir do nosso chão primordial foi um divisor de águas em minha experiência de compor dança. Levou-me a aprofundar minhas buscas em torno do corpo-ancestralidade. E me marcou de forma indelével.

Está marcada em mim sua força e o seu fogo transformador. A sua presença conduzindo esse processo. O timbre da sua voz e a harmonia do seu canto. Recordo-me quando ia a sua casa para as nossas orientações e você me recebia cantando. A porta do apartamento aberta. Um cheiro bom de incenso. E você cantando na varanda. Depois passava horas a ouvir as suas histórias e a apreciar a sua companhia. Era um cenário mágico!

Feliz de quem tem o que quer

Na força grande de um xangô menino

Vai ser de bem, vai ser de fé

Vai ser senhor e rei do seu destino

(“Afreketê” – Intérprete: Alcione/ Composição: Paulo Cesar Pinheiro e Edil Pacheco)

Não foi um semestre fácil para mim. Mal conseguia dormir nas noites de terça para quarta feira. Ficava ansiosa. O que iria ser? Passava a semana buscando esse chão. Estava preocupada. Precisava montar uma frase coreográfica ou um solo que partisse dessa pesquisa. E ainda nada de chão para mim.

Fazia longas caminhadas pelos bosques do Campus. Andava descalça. Parava. Sentia a paisagem me atravessar. Pisava em folhas secas, em poças de águas. Deitei no chão úmido e fiquei a observar o pôr do sol e o entardecer. Entreguei meu corpo ao chão. E busquei o céu.

Nos laboratórios você dizia. Lembrem-se da infância. Como era o chão de sua infância? Era terra, areia de mar, asfalto? Você subia em árvores? Quais as sensações que esse chão trás para você?

Não sei o porquê, mas eu não conseguia me desprender dessa imagem de terra. Chão é terra. Eu pensava assim. E, assim, segui buscando a terra em mim. E nada!

Oh céus, como eu sofria. Virei-me do avesso.

Em um dos laboratórios finais eu mergulhei fundo nessa imagem de uma criança que sobe em árvores. Eu fui essa criança. E eu amo árvores. E durante as experimentações eu comecei a me sentir árvore. E essa sensação começou a me conduzir e a me mover. Eu estava me movendo. Algo se movia em mim. Alguma coisa estava acontecendo. E eu passei a explorar essa sensação como imagem e a buscar diferentes intenções para os gestos que surgiam. Comecei a sentir as raízes dessa árvore. E essa árvore tinha raízes retorcidas como galhos que buscavam o céu. As raízes dessa árvore voam com o vento.

No dia marcado para as apresentações dos processos criativos do curso, todos os colegas estavam reunidos e o seu olhar atento dirigia o ritual. Fui uma das últimas a apresentar. Fiz meu solo sem música. Busquei um ritmo interno, o som da minha respiração como o som do meu vento. E fui.

Estava muito nervosa. Mais muito nervosa mesmo. Busquei uma concentração profunda. Seria a primeira vez que eu iria dançar alguma coisa para você conhecer a minha movimentação e isso também me deixava nervosa.

Comecei. Desenhei no espaço uma diagonal e me movimentava devagar. Devagar como as árvores. E fui. No meio da apresentação surgiu uma música na cabeça, comecei a cantá-la baixinho.

Paro no meio do percurso e faço uma movimentação para ir para o chão. No chão, começo a recolher terra e a trazê-la para os pés. Começo a me plantar.

No meio disso sinto uma emoção forte e começo a chorar compulsivamente. Mas a chorar muito. Muito mesmo. Foi tão forte que não pude conter e as lágrimas começaram a formar uma poça de água no chão. Eu estava agachada de cócoras e o meu chão agora era água.

Todos perceberam que eu parei o trabalho e estava ali admirada e trêmula. Foi uma experiência epifânica.

Quando se for esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz; verde cor de arrebentação
Sargaço mar, sargaço ar
Deusa do amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinado; desesperar
Querer morrer para viver com Iemanjá
Iemanjá, Odoiá, Iemanjá, Odoiá

(Sargaço Mar – Intérprete: Adriana Calcanhoto / Composição: Dorival Caymmi)

Sentia aquela água salgada a escorrer por meu corpo e alcançar o chão. E a transformar o chão. A transformar o meu corpo. A transformar o espaço e o movimento.

Percebi ali que o meu chão é água. Água difícil de conter. Água que se espalha. Água salgada como as lágrimas que transbordam. Eu posso chorar o mar. O meu chão é o mar. Eu sou o Mar.

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho,

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.

(Mar Sonoro – Intérprete: Maria Bethânia / Composição: Sophia de Mello Breyner Andresen)

Essa filha de Xangô me inspirou a perceber o conhecimento de forma integrada dando especial atenção a nossa história pessoal como manancial milenar de saberes. E, sobretudo, me instigou a questionar, a propor, a criar, a transbordar e a me apropriar das obras, das formas, da vida. Porque nada está dado como definitivo e para sempre.

Uma vez cheguei ao seu apartamento e havia um colar que ela havia ganhado adornando uma escultura que ficava acima do piano na sala. Eu olhei com curiosidade para aquela obra e ela já foi logo dizendo: isso sou eu inventando. Obra de arte não é pra ficar só contemplando não. A gente pode dar os nossos pitacos!

Eu vim lhe ver

E sem querer mergulhei fundo

Xangô já cansou de me dizer

Que seu calor é que faz meu mundo

Xangô já cansou de me dizer

Que seu calor é que faz meu mundo

(“Afreketê” – Intérprete: Alcione / Composição: Paulo Cesar Pinheiro e Edil Pacheco)

 

Share
Ana Carolina Wenceslau

Artesã saboeira, intérprete-criadora, pesquisadora e produtora cultural com formação em dança. Mestre em Artes pela Unicamp (2008). Licenciada em Dança pela Universidade Federal de Goiás (2016). Concepção, curadoria e direção artística do Festival de Danças Poéticas Negras (2012). Atualmente é professora substituta do curso de Licenciatura em Dança do IFG Campus Aparecida de Goiânia.

One Comment

  1. Maria Ozana da Trindade Reply

    Bom dia professora,… estou ansiosa por continuar a ler. Muito intenso, adorei! (Ozana)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *