Warburguiar – performar nossas rebeliões

Há dois anos, tenho me dedicado a buscar epistemologias que permitam historiografar a dança provocada por dinâmicas rizomáticas, tais como a cartografia, e também por estar guiando os estudos e intervenções do Cartografia de ficções, desde 2014. Desde Aby Warburg, a mim apresentado ainda em 2015, tem sido desafiador compreender cruzamentos interdisciplinares, tais como este historiador da arte compreende para revisitar estudos de história da dança, bem como a influência da prática de pesquisa e curadoria que exerci no Acervo Mariposa (2007-2015).

No “Performar Arquivos – edição Goiânia”, além de responder pela coordenação de pesquisa, foi possível avançar na leitura dos estudos de Aby Warburg a partir de George Didi-Huberman, sobretudo provocada pela exposição e palestra ocorrida em dezembro de 2017, em São Paulo, sobre os levantes como movimentos de história e memória, cujas imagens contam-nos sobre dinâmicas de sua iconologia. Na residência deste projeto, em abril de 2018, foi possível participar e se deixar entrelaçar pelas pesquisas de mesmo cunho, como as dos grupos Olhares pra Dança e Pelas Beiras e pelo percurso acadêmico e artístico de Kleber Damaso. Foi então possível vivenciar as pesquisas correlatas a fim de entrelaçamentos conceituais sobretudo no que tange o estudo das imagens na história da dança.

 

Warburguiar – performar nossas rebeliões

 

Falar das memórias e arquivos do corpo implica em certa subjetividade. Esta proposição de procedimento a ser experimentado pelo leitor, artista, público parte de tal subjetividade, criativa, atuante, atenta, tanto do seu acervo próprio como no seu corpo, com objetivo de te apresentar Aby Warburg na prática.

Figura 1 – Auto retrato em fotografia de Aby Warburg. Disponível em http://photothek.khi.fi.it/documents/obj/07905966. Acessado em 16 de maio de 2018.

Historiador da arte alemão, Aby Warburg (1866-1929) atuou empreendendo e pesquisando, também vivenciando seu arquivo, tanto gestual e subjetivo, como também teórico intenso e, podíamos também constatar que se seguiu à deriva, errático. Atuou no campo da ação curatorial, empreendeu uma biblioteca de dimensões gigantescas, pesquisou sua metodologia historiográfica fantasmal e realizou o Atlas Mnemosyne (1924) – uma coleção de pranchas nas quais as referências de quadros ou pinturas eram entendidas em relações internas da imagem, a sua iconologia, e não categorizadas por seus períodos ou movimentos artísticos, como a história da arte é normalmente contada. Historiografar para Warburg, sob certo ponto de vista, era também uma ação subjetiva, uma implicação do seu olhar.

Para mais informações sobre o autor, veja site oficial: https://warburg.sas.ac.uk. E também importante projeto brasileiro sobre Warburg: http://www.unicamp.br/chaa/warburg.php.

Figura 2 Prancha de imagens de selos, por serem aqueles ícones que viajam no tempo e espaço, presentes na Biblioteca de Warburg e que reúne deuses, mitos, personificações e retratos. Disponível em https://iconographic.warburg.sas.ac.uk/vpc/VPC_search/record.php. Acessado em 16 de maio de 2018.

Georges Didi-Hubermann (1953-), filósofo e historiador francês, é leitor atento das estratégias e conceitos de Warburg e realizou, em novembro de 2017, uma palestra na ocasião da exposição Levantes, no SESC Pinheiros, em São Paulo, sob sua curadoria. Nesta, o autor nos fornece pistas para tal subjetividade a partir do conceito e percepção, tão atual, de rebeliões ou levantes. Sobre o que eles contam da história ou mesmo do entendimento da nossa história?

Disponível em https://www.sescsp.org.br/online/artigo/11440_LEVANTES+IMAGENS+E+SONS+COMO+FORMA+DE+LUTA. Acessado em 15 de dezembro de 2017.

Figura 3 Manifestantes católicos, Bataille du Bogside, Derry, Irlande du Nord, agosto de 1969, Gilles CARON. Disponível em http://cartacampinas.com.br/2017/10/levantes-monta-imagens-a-partir-do-gesto-indestrutivel-de-levantar-se-contra/. Acessado em 16 de maio de 2018.

Como seria, então, warburguiar nossa história e nossos acervos a partir de imagens de rebeliões? Como seria isso para história da dança? Onde na sua história você se sente incluído(a), no seu corpo ou diante de cenas de dança? Performar minha história, réu desta, é para se dar a oportunidade de compreender as imagens, os gestos, o corpo do qual podemos compreender, com uma lente de Warburg, o corpo da cena. Uma experiência.

Dado este contexto, warburguiano e artístico-cultural, nosso procedimento provoca: performar seu arquivo a partir de imagens de suas rebeliões na dança.

 

 

Procedimento: rebeliões em dança, imagens em movimento

 

 

“Uma imagem, toda imagem, resulta dos movimentos provisoriamente sedimentados ou cristalizados nela. Esses movimentos a atravessam de fora a fora, e cada qual tem uma trajetória – histórica, antropológica, psicológica – que parte de longe e continua além dela. Elas nos obrigam a pensá-la como um momento energético ou dinâmico, ainda que [a imagem] seja específica em sua estrutura” (Didi-Huberman, 2013: 33-34).

  1. Comece por um papel no qual possa escrever, em letras garrafais, REBELIÃO. Deixe que sua biblioteca interna traga várias imagens de rebeliões, lutas, manifestações das quais você tenha visto, vivenciado ou tenha te chamado atenção. Anote.
  2. Faça o mesmo com REBELIÕES DANÇA. Na sua biblioteca vivenciável, procure as experiências de rebelião que você tenha experimentado no corpo, no movimento, no gesto, na cena.
  3. Leia ambos. Dê uma pausa. Veja o que se destaca para você: um gesto? Uma dança? um momento histórico, social, cultural, artístico?
  4. Agora, recorra a uma biblioteca externa: pode ser uma videoteca, um acervo, alguém que você conheça que possa com você vasculhar imagens de dança. Procure imagens de rebelião relacionadas a sua dança. Este é o momento mais importante do seu procedimento.
  5. Escolha três imagens das que você coletou.
  6. Ao reuni-las, observe, sem pressa, o que as assemelha? Diferencia? Qual tempo elas sugerem? Há gestos que se relacionam? Há um padrão recorrente? O que as diferem? Quais relações sobre suas rebeliões essas imagens te contam, tanto sobre seu percurso artístico em dança como do contexto a que você pertence?
  7. Experimente trocar suas impressões com seus colegas. Veja se isso traz novas percepções sobre sua história.
  8. Se quiser, compartilhe aqui (no site) ou para performararquivos.goi@gmail.com.
  9. Divirta-se relacionando sua história com seu acervo subjetivo.

Manifestar-se é um gesto. Pode ser um gesto de dança e pode ser um gesto de violência também, de revolta.” – Georges Didi-Huberman

 

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Nirvana Marinho

Curadora de dança, doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP, 2006) e graduada em Dança (UNICAMP, 1999). Atuou em projetos artístico-pedagógicos e dançou entre 1995-2006 em projetos solo. Foi curadora-destaque do Rumos Dança Itaú Cultural (2000-2001). Entre 2007-2015, empreende o Acervo Mariposa. Em 2014, inicia uma ação de pesquisa nomeada Cartografia de ficções e, no mesmo ano, colabora para estabelecer o Ação Vizinhas no qual tem estado presente e atuante como Acervo Mariposa e Cartografia de ficções, juntamente com o Temas de Dança. Em 2018, inicia seu pós-doutorado sobre história das artes da cena, segundo historiografia de Aby Warburg. Atua como terapeuta BodyTalk desde 2015.

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